Crónica da tertúlia das Banalidades dos "Idos de Março" onde se dá conta das muitas e desvairadas visões da vida, da arte, da história, das aventuras e de outros detalhes que nos fazem pensar e sorrir.
Conferências no novo espaço IFICT - Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral (R. da Bica do Sapato, 48/A - Lisboa)
José Gil apresenta o orador da noite, António Baptista dos Santos...
...que apresentou a questão do Sahara Ocidental como território ainda sob domínio colonial não obstante a persistente luta do seu povo e da Frente Polisário
No mapa é bem visível a linha que separa Marrocos das forças da Frente Polisário
El Aaiun, capital do Sahara Ocidental
Cidade do Bojador, junto ao cabo bem conhecido dos portugueses
A exploração de fosfatos e a pesca são dos mais importantes recursos naturais do território
Nómadas, os "filhos das nuvens" seguem as rotas das chuvas
em busca de pastagens para o gado
A célebre conferência de Berlim que onde se decidiram
questões territoriais e a partilha colonial de África
Em 1974, Espanha conclui o primeiro censo conhecido do território
apurando uma população de cerca de 74.000 habitantes.
Em 1975 Juan Carlos, ainda príncipe das Astúrias, visita o território
antes de Espanha devolver a respectiva soberania, dividida entre Marrocos e Mauritânia, em 1976
O rei de Marrocos liderando a "marcha verde" para ocupação do território
O líder da resistência saharaui
A guerra da Frente Polisário contra Marrocos foi extremamente violenta
e Marrocos edifica um "muro" de protecção com cerca de 22.500 kms.
Em 1991 a ONU patrocina um plano de paz que prevê a realização
de um referendo à população acerca da autonomia do território.
Marrocos tudo faz para evitar a realização do referendo e apesar do reconhecimento internacional sobre a legitimidade das aspirações saharauis, a situação mantém-se não obstante a revolta da população
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Grupo Coral "CRAMOL"
Após a conferência, actuou o "Cramol". grupo de mulheres que desenvolve a sua actividade no âmbito de uma associação cultural, a Biblioteca Operária Oeirense.
António Correia apresenta o Cramol
Formado em 1979, o Cramol dedica-se ao canto tradicional de mulheres. A sua actuação incluiu peças dos cancioneiros de Arouca, S. Pedro do Sul, Tuiselo/Vinhais, Lafões, Manhouce e Castelo Barnco.
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Por fim, o saudável convívio à
volta da mesa d’ iguarias
Durante a "ceia" ainda houve oportunidade para ouvir
Será que em Maio poderemos gritar "que se lixe a troika"? Era esta a pergunta que todos no Santiago Alquimista queriam ver com resposta positiva... Para João Ferreira do Amaral a questão é que a economia portuguesa sofre de males antigos (de decénios) que ultrapassam as "maldades" que a troika e a União Europeia lhes têm feito; a sua actuação apenas se tem limitado a agravar a situação. O ponto é que os remédios prescritos para a economia portuguesa têm sido totalmente desajustados; o doente piora a olhos vistos e os "médicos" exibem soberana indiferença...
Adolfo Gutkin deu as boas vindas ao orador que, pela segunda vez,
veio ao Santiago Alquimista esclarecer um pouco
a (triste) situação da economia portuguesa
António Correia apresentou João Ferreira do Amaral, professor catedrático no ISEG desde 1995 e autor de valiosa bibliografia, não apenas no campo da economia.
Economista de grande prestígio, esforçou-sedesde o início do processo por salientar a enormidade do erro de Portugal ter aderido ao Euro
e as dramáticas consequências dessa decisão.
Infelizmente, a realidade está a dar-lhe toda a razão.
Apesar das intensas solicitações pedagógicas e mediáticas,
João Ferreira do Amaral tem demonstrado sempre
uma pronta disponibilidade para participar nas nossas "Banalidades"
A actual situação é fruto de erros estratégicos acumulados ao longo de décadas e em resultado, a sustentabilidade do País
está hoje ameaçada não só no plano económico,
mas também nos planos financeiro, social e demográfico.
Economicamente, aos erros acumulados nas últimas décadas soma-se agora a política de austeridade adoptada, mal concebida e (pessimamente) executada.
A nossa estrutura produtiva está profundamente distorcida e inseriu-se desastradamente na era da globalização.
A decisão de aderir ao euro impôs-nos politicas de convergência
que resultaram na redução da proporção de bens transaccionáveis
em relação aos não transaccionáveis.
A produção de menos bens transaccionáveis resulta na redução de exportações e no aumento das importações, gerando-se um ciclo vicioso que exige austeridade crescente. Perderam-se quotas de mercado não só em relação às economias emergentes mas também em relação a países europeus, criando-se condições para intensificação do endividamento da economia. Na origem dessas dificuldades, em competir no mercado internacional, destaca-se o elevado valor do euro, demasiado forte para a economia portuguesa;
moeda forte e economia débil é uma combinação letal a tal ponto que Ferreira do Amaral considera a decisão de aderir ao euro tão errada como a assinatura do tratado de Methuen no início do século XVII.
Mas também o alargamento da União Europeia a leste, foi muito pressionante para a nossa economia, não tendo havido das autoridades portuguesas as indispensáveis cautelas e atitudes que prevenissem os efeitos que se sabia resultariam desse alargamento (estudos da própria Comissão mostravam que Portugal seria o país mais prejudicado);
neste panorama, a chamada globalização, com a abertura do mercado mundial ao comércio e a emergência de países com condições extremamente competitivas, constituíram novos golpes profundos para a nossa economia muito ampliados por termos moeda demasiado forte.
As perspectivas para o futuro com uma moeda tão forte só podem ser pessimistas e a tendência de evolução do valor do euro é a de valorização...
o cenário para um valor do euro equivalente a 1,6 US dl,
é catastrófico e a nossa economia pode ser varrida.
No plano financeiro, é notória a incapacidade da nossa economia em garantir as condições de pagamento de uma dívida pública pesadíssima,
na ordem dos 130% do PIB, que não pára de crescer
apesar da austeridade que temos sofrido.
No plano social, a insustentabilidade deriva de se ter já atingido o limite da redução do rendimento disponível da população sem que surjam rupturas desastrosas e da dramática situação dos desempregados de "meia idade" sem perspectivas de vir a encontrar trabalho.
No plano demográfico, o processo de envelhecimento da nossa população é muito rápido, já vem de trás, e deve-se à conjugação de factores negativos e positivos (quebras da taxa de natalidade e prolongamento da esperança de vida...) a que se soma a intensa emigração em níveis semelhantes aos dos anos sessenta, mas com piores consequências por ser principalmente de jovens (muito) qualificados
Nestas condições, com a sustentabilidade gravemente ameaçada, poderá suceder ao País em relação à Europa, o que tem vindo a suceder ao interior relativamente às zonas urbanas do litoral.
A ausência de instrumentos de política monetária e orçamental para combater esta situação é dramática.
A UE seguiu o caminho da centralização absoluta, controlada por um país verdadeiramente dominante, a Alemanha. Exemplo flagrante é a adopção do Tratado Orçamental, de que Portugal foi orgulhosamente o primeiro subscritor...!
No âmbito deste tratado, Portugal terá de reduzir a sua dívida pública para um máximo de 60% do PIB, em vinte anos! Será impossível aos níveis de crescimento previsíveis para a nossa economia. Não cumprindo essa meta, o País terá de sujeitar-se a "Parcerias" com a UE para controle das nossas contas.
Nestes termos, o futuro da nossa soberania está traçado;
continuaremos a ser um protectorado...
...assim sendo, haverá vida para além da troika?
HÁ, MAS TEMOS DE FAZER POR ISSO!
No debate que se seguiu, falou-se de Vítor Gaspar e do real sentido da sua carta de demissão,
das possibilidades de desaparecimento da zona euro....
...do que aconteceria à UE, o papel dos EUA nesta situação...
...do papel do MEDO na manutenção do status quo actual...
...porque razão a dívida cresce sempre, a quem interessaram os movimentos que levaram à actual divisão política da Europa (designadamente na antiga Jugoslávia)...
...que interesses estão a ser jogados na Ucrânia,
num jogo extremamente perigoso...
...será possível uma maior harmonização, designadamente a nível fiscal...?
Não foi muito optimista a sessão mas "a luta continua"!
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Para desanuviar um pouco, seguiu-se o momento musical com os